Dossier Geopolítica da Energética (Parte II)
A Importância do Petróleo
O petróleo continuará a atender à maior parte das necessidades globais de energia até ao final do século XX. Entretanto, existe uma grande possibilidade de que a importância do petróleo tenha sido subestimada nas previsões:
l. O petróleo é considerado o combustível “quebra-galho” compensando todas as deficiências na produção de fontes de energia alternativas; assim, se houver qualquer atraso no desenvolvimento e produção de carvão, gás natural e energia nuclear, o petróleo terá que compensar a diferença.
2. As previsões supõem que, no futuro, as taxas de crescimento do PNB serão menores que as taxas históricas; se no futuro as taxas de crescimento do PNB voltarem à tendência antiga ou superarem os valores usados nas previsões, o petróleo terá que atender a uma maior demanda de energia. Como as previsões tendem a ser excessivamente influenciadas por eventos correntes ou de curto prazo, existe a possibilidade de que as taxas de crescimento supostas sejam, na realidade, pequenas demais.
3. Se a queda do consumo de petróleo foi mais uma consequência da recessão do que um resultado da alta dos preços, a recuperação econômica estimulará o consumo.
4. Se o preço de alternativas energéticas a curto prazo acompanhar os preços mundiais do petróleo, os incentivos para a substituição (que pode também envolver a compra de novos equipamentos e outros investimentos iniciais) serão reduzidos, enquanto que os incentivos para aumentar a produção interna de petróleo se tornarão maiores; em consequência, a substituição de petróleo por outras fontes de energia poderá ser retardada.
5. A mentalidade de crise que apareceu como consequência do embargo de 1973 já diminuiu, e parece haver um senso muito menor de urgência com relação à necessidade de desenvolver alternativas para o petróleo, pelo menos para o público em geral.
Além do mais, muitas das previsões dependem da capacidade dos governos de elaborar, promulgar e implementar uma política energética abrangente. Se os governos foram incapazes de fazê-lo, como até agora, o desenvolvimento de formas alternativas de energia poderá ser retardado. Como as previsões dependem da implementação dos programas nacionais de conservação, podem superestimar o grau de decisão política existente nos países industrializados. Em geral, o desempenho econômico sofrível dos países industrializados tem levado os governos a manterem os preços internos do petróleo abaixo dos preços internacionais, diminuindo assim os efeitos de conservação e incentivo da alta dos preços. Além disso, em alguns países a incerteza a respeito dos papéis do governo e do setor privado inibe as atividades de ambos no setor energético. Em todos esses casos, o resultado é o aumento continuado da demanda do petróleo e um desenvolvimento mais lento de alternativas energéticas.
Os prazos de maturação associados ao desenvolvimento de fontes alternativas ou suplementares de energia são bastante longos. Os seguintes prazos de maturação estimados (anos entre a decisão e o início das operações) provavelmente otimistas são ilustrativos:
• Desenvolvimento de campo provado, mas sem produzir, no Oriente Médio 1-2 anos
• Aumento da produção de campo de petróleo, nos Estados Unidos 1-3 anos
• Extração de petróleo da plataforma continental, nos Estados Unidos 9-14 anos
• Mina de carvão a céu aberto 2-4 anos
• Mina de carvão subterrânea 3-6 anos
• Usina elétrica a óleo, geotérmica ou usando combustíveis sintéticos 5 anos
• Usina elétrica a carvão 5-8 anos
• Usina hidrelétrica 5-8 anos
• Produção de petróleo e gás natural em novos campos, nos Estados Unidos 3-12 anos
• Prospecção e mineração de urânio 8-10 anos
• Gaseificação de carvão 10-15 anos
• Areias petrolíferas e xisto 5-10 anos
O efeito desses longos prazos de maturação se torna mais claro quando somamos a esses números os atrasos na tomada de decisões, resultantes de políticas governamentais ambíguas, e o fato de que o inicio das operações não corresponde ao ponto de máxima contribuição.
Todas as indicações disponíveis sugerem que apenas depois de depois do final do século XX e as fontes alternativas de energia - óleo de xisto, óleo de areias petrolíferas, energias marítimas, aeólicas, biomassa, hidrogênio e solar – foto voltaica -começarão a contribuir significativamente para o suprimento total de energia.
O tempo, nesse caso, se torna de importância vital. É bem possível que as fontes alternativas de energia não sejam desenvolvidas com rapidez suficiente ou em escala suficiente para evitar crises esporádicas de energia e a ocorrência de uma escassez global de petróleo. Será difícil coordenar os muitos aspectos da relação oferta-demanda de petróleo, e crises esporádicas podem ser previstas, começando nos primeiros anos desta década.
A posição dominante do petróleo no suprimento total de energia
Está assegurada que até 2010/2020 que o petróleo seja destronado. Se não forem adotadas medidas imediatas quanto á inovação e implementação de energias alternativas, a situação no resto do século poderá ser basicamente a mesma: o petróleo ocupará uma posição dominante no suprimento de energia. Dar – se – á o Pico do Petróleo.
Além disso, mesmo que a participação do petróleo no suprimento total de energia possa ser reduzida até o final do século, a demanda continuará a aumentar em ter¬mos absolutos.
A importância das importações de Petróleo
Os países industrializados continuarão a depender do petróleo como principal fonte de energia, e isto por sua vez significam que os países industrializados, como um todo, continuarão a depender das importações de petróleo. Entretanto, existem diferenças entre os países do Mundo não desenvolvidos e pobres mais ricos em recursos naturais, quanto a: (I) a importância do petróleo para a economia; (2) o grau de dependência de importações; (3) as possibilidades de conservação de energia em geral e conservação de petróleo em particular; (4) a possibilidade de aumentar a produção interna de petróleo; (5) a vulnerabilidade à escassez de petróleo; (6) a possibilidade de usar outros recursos naturais para substituir o petróleo.
Para o Japão, o petróleo constitui a maior parte (70-75 por cento do consumo de energia primária. Além disso, praticamente 100 por cento do suprimento de petróleo do Japão ainda será importado. As perspectivas a longo prazo não são favoráveis, e é pouco provável que sejam descobertas reservas significativas de petróleo. A curto prazo, o Japão pode apenas procurar diversificar suas fontes de importação, para reduzir sua dependência em relação aos fornecimentos do Oriente Médio (75 por cento das importações de petróleo cru do Japão ), enquanto que a criação de uma reserva estratégica de petróleo cru poderia reduzir a vulnerabilidade do Japão a interrupções do suprimento. A prazo mais longo, apenas o desenvolvimento de fomes de energia alternativas particularmente a energia nuclear - reduzirá a dependência japonesa em relação ao petróleo, e portanto em relação às importações. A dependência energética, entretanto, continuará a ser um fato da vida e da mais grave conseqüência estratégica para o Japão, já que o país não dispõe de reservas significativas de nenhum recurso energético -nem carvão, nem urânio, nem petróleo, nem gás natural.
A Europa também continuará a depender de importações de petróleo. O petróleo será responsável por 50 por cento do consumo de energia. A produção de petróleo e gás no Mar do Norte poderá aliviar um pouco a situação, particularmente para a Inglaterra, mas uma dependência em relação às importações de petróleo da ordem de 70 a 85 por cento é prevista para a Comunidade Européia. O petróleo será responsável por quase 40 por cento do consumo de energia dos Estados Unidos, o pais ainda terá que importar 50 por cento do seu suprimento de petróleo. Talvez esta situação perdure até ao final da 1º década de 2000. A meta dos Estados Unidos de reduzir as importações de petróleo para menos de 6 MBD em 1985 parece difícil de ser atingida. E difícil acreditar que em menos de cinco anos o maior consumidor de energia do mundo consiga este feito. (Por outro lado, o petróleo representa uma menor porcentagem do consumo total de energia do que na Europa e no Japão. Além dis¬so, a porcentagem de petróleo importado é menor. Finalmente, os Estados Unidos dispõem de mais recursos energéticos alternativos que as outras duas regiões.)
A produtividade dos campos de petróleo Russo está diminuindo, e as reservas mais promissoras estão em ambientes hostis, longe dos mercados da Rússia Européia e da Europa Oriental. Os russos poderão desenvolver os campos da Sibéria Oriental com seus próprios recursos, mas o processo será longo e penoso. Não podemos excluir a hipótese de uma ajuda ocidental no futuro, mas quanto mais essa ajuda demorar, menos será necessária. A contribuição do petróleo da Sibéria Oriental só começará a se fazer sentir a partir de 2000 seja uma data mais realista. Nessa ocasião, o petróleo da Sibéria servirá apenas para compensar o esgotamento dos campos mais antigos.
O programa de conversão da economia interna para o petróleo provavelmente sofrerá certo atraso. Por outro lado, os russos podem preferir importar petróleo do Oriente Médio. Na Europa Oriental, os russos deverão encorajar países a também importar mais do Oriente Médio. Os soviéticos se comprometeram a fornecer 67 por cento do petróleo consumido pela Europa Oriental, uma redução substancial, mas em quantidades suficientes para manter a influência e o controle soviéticos. Os russos vão tentar manter as exportações para a Europa Ocidental, talvez mesmo à custa da redução dos fornecimentos para a Europa Oriental.
Ao mesmo tempo, com o rápido aumento do consumo na Rússia e na Europa Oriental e com o aumento dos preços do petróleo, as exportações soviéticas para o Ocidente provavelmente se estabilizarão em certo volume abaixo do que lhes daria uma influência econômica e política significativa sobre os países da Europa Ocidental. As exportações de petróleo para o Japão poderão aumentar um pouco, enquanto que exportações para a Europa Ocidental, da ordem de pouco menos de I MBD, parecem prováveis, Para praticarem uma chantagem econômica, os russos teriam que contar com a conivência de pelo menos alguns dos produtores do Oriente Médio. Nem a Europa Ocidental nem o Japão estão dispostos a trocar sua dependência atual do petróleo do Oriente Médio por dependência futura do petróleo russo.
Também não é provável que o petróleo russo venha a ser encarado como uma competição por parte dos países do Oriente Médio. Em outras palavras, não deverão surgir tensões entre os PMD exportadores de petróleo e a ex U.R.S.S. por causa dos mercados ocidentais, já que as exportações russas tenderão a se estabilizar c a situação de oferta-demanda no paÍs ficará mais equilibrada.
A ex União Soviética dispõe de vastas reservas “desconhecidas” de petróleo. Assim, a partir 2000 talvez os russos recuperem sua posição de auto - suficiência energética.
É preciso notar que a escassez de petróleo na ex União Soviética não será causada pela exaustão das reservas, e sim pelas dificuldades de explorar a tempo as reservas ainda não utilizadas.
Em conclusão, o desenvolvimento de alternativas internas, a substituição, a conservação e a redução da demanda de petróleo não eliminarão a dependência energética dos países industrializados, particularmente Europa e Japão. Talvez a contribuição relativa das diversas formas de energia mude um pouco, mas é evidente que a dependência de fontes de energia importadas, inclusive o petróleo, será uma realidade para os países industrializados.
Reservas de Petróleo
Concentração das Reservas
Em 1980, O Oriente Médio e a África foram responsáveis por 65 por cento das reservas provadas mundiais de petróleo bruto (78 por cento das reservas provadas do Mundo ); entretanto, o consumo do Oriente Médio e da África representou apenas 5 por cento do consumo mundial. As reservas da OPEP constituíam 66 por cento das reservas provadas mundiais (80 por cento), enquanto que as da OPAEP correspondiam a 50 por cento. Ao mesmo tempo, a América do Norte e a Europa Ocidental detinham apenas 15 por cento das reservas mundiais (o Japão não tinha reservas), mas as três regiões eram responsáveis por 65 por cento do consumo mundial.
É extremamente improvável que este padrão venha a sofrer qualquer mudança significativa. Pelo contrário, a tendência é no sentido de que as reservas se concentrem em um número de países cada vez menor - isto é, os países do Golfo Pérsico à medida que o consumo dos países industrializados for aumentando em relação a suas reservas. Não é provável que o aumento das reservas de petróleo dos países industrializados seja maior que o aumento do consumo.
A prospecção intensiva, o uso de novas técnicas de recuperação, a adoção de medidas de conservação e a redução do consumo de petróleo não evitarão um declínio da relação reservas/produção. Além do mais, dados os longos prazos de maturação entre descoberta, desenvolvimento e produção plena, um aumento imediato das reservas só começaria a contribuir para o suprimento do petróleo a partir de meados da próxima década.
Categorias de Reservas
Com o aumento dos preços do petróleo, tornou-se um hábito ir além da espera das reservas provadas é falar de outras categorias de reservas que, com os preços mais altos, podem tornar-se econômico.
As reservas provadas, de acordo com o American Petroleum Institute, são as “qual1lidades de petróleo cru no solo que dados geológicos e de engenharia demonstram com razoável certeza que são recuperáveis de reservatórios conhecidos, de acordo com as condições técnicas e econômicas de operação vigente”. Nas estatísticas, geralmente são citadas as reservas provadas.
Tipicamente, a taxa de recuperação de um campo em exploração é baixa-da ordem de 30-40 por cento na média (o mínimo é de cerca de 20 por cento) -e o resto do petróleo só pode ser extraído com o auxílio de técnicas de recuperação. Além disso, quando um campo é desenvolvido, as estimativas das reservas muitas vezes são corrigidas à medida que as características do campo passam a ser conhecidas com maior precisão. “O petróleo adicional que pode ser recuperado de um campo existente sob a forma de uma reavaliação das reservas ou através de recuperação secundária ou terciária é chamado de reservas prováveis”. Somando as reservas “provadas” às reservas “prováveis”, obtemos as reservas totais descobertas.
É também possível estimar as reservas não-descobertas a partir de indícios geológicos ou outras técnicas sofisticadas. As reservas não descobertas são chamadas de “reservas possíveis”, e sua existência e tamanho estão sujeitos a grandes incertezas. “Combinando as reservas descobertas e não-descobertas e supondo um fator de recuperação de 40 por cento, obtemos um número que é chamado de reservas ‘ ‘recuperáveis”.
As reservas totais de petróleo constituem uma medida de quantidade de petróleo que se acredita existir na Terra, deixando de lado a questão da viabilidade técnica e econômica da recuperação.
Muitos argumentam que com o aumento dos preços as reservas prováveis se tornarão econômicas e a prospecção de novos campos será estimulada. Se o clima de investimento for favorável, talvez isto venha a ocorrer. Mas isto não diz nada a respeito das limitações impostas pela falta de conhecimentos geológicos e de engenharia, a necessidade de grandes investimentos de capital, a disponibilidade dos equipamentos necessários e considerações ambientais. Além disso, o preço terá que ser suficientemente alto e aparecer no mercado (isto é, estar livre de controles governamentais de preços). Finalmente, e o que é mais importante, o petróleo terá que existir realmente para ser descoberto e explorado.
Serão tomadas medidas para desenvolver as reservas prováveis e acelerar a prospecção; mas o progresso poderá não ser suave, rápido ou pouco oneroso.
Reservas Recuperáveis
Acredita-se que as reservas recuperáveis mundiais são da ordem de 1,6 trilhões de barris; desse total, 37 por cento ou 608 bilhões de barris já foram descobertos. A conversão de reservas prováveis em (reservas provadas não altera a concentração de reservas de petróleo que mencionamos há pouco. Dos 608 bilhões de barris de reservas descobertas (provadas mais prováveis), 360 bilhões estão localizados no Oriente Médio.
As reservas recuperáveis totais (provadas mais prováveis mas não descobertas) do Oriente Médio são estimadas em mais de 510 bilhões de barris. Desse total, 360 bilhões já foram descobertos, mas apenas uma pequena parte foi explorada, de modo que ainda restam imensas reservas para exploração futura. Acredita-se que as maiores reservas não-descobertas estejam na ex União Soviética e na China. Estima-se que dos 380 bilhões de barris de reservas recuperáveis na ex U.R.S.S., apenas 80 bilhões foram descobertos. Assim, cerca de 300 bilhões de barris, a maior parte na Sibéria Oriental, ainda serão descobertos.
Grandes aumentos das reservas dos Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão não são previstos. Já observamos que de qualquer forma um aumento “grande” não seria suficiente; apenas uma descoberta realmente gigantesca poderia ameaçar a posição dos produtores do Oriente Médio. O aumento das reservas do decorrerá da ampliação de campos existentes e da extração de petróleo das plataformas submarinas, ou pelo menos esta é a opinião da maioria dos observadores.
Produção de Petróleo
As reservas estabelecem um limite máximo para o que pode ser feito; entretanto, não dizem muita coisa a respeito do que realmente será feito. E evidente que níveis diferentes de reservas sustentam níveis diferentes de produção, dependendo da demanda, preço, disponibilidade de apoio logístico para exportações, características geológicas das áreas produtoras, capacidade tecnológica, considerações de conservação e os objetivos políticos e econômicos do governo produtor. Assim, por exemplo, os Estados Unidos, com cerca de 27 bilhões de barris de reservas provadas e prováveis, produziu 3,1 bilhões de barris em 1979, enquanto o Iraque, com 31 bilhões de reservas provadas e prováveis, produziu apenas 1,2 bilhão de barris em 1979. O ponto essencial aqui é que a intensidade com que uma dada quantidade de reservas será ex¬plorada dependerá de muitos fatores, alguns econômicos e algumas políticas.
Existe, entretanto, uma correlação positiva entre reservas e produção. Assim, não é de surpreender que encontremos a produção concentrada em regiões fora dos países industrializados A partir de 1985, a produção ficou estabilizada, talvez até 2010, quando começará a diminuir -a menos que as reservas do Mar do Norte correspondam á expectativas dos mais otimistas. De qualquer forma, assim como o aumento das reservas será menor que a produção (provocando assim uma diminuição das reservas), a produção será menor que o consumo, c o aumento da produção não evitará a necessidade de grandes importações de petróleo.
Com os países industrializados produzindo o máximo possível de petróleo, a produção desses países passará por um pico e começará a decair pouco depois de 2010. A produção japonesa continuará a ser insignificante até o final do século, a menos que sejam descobertas reservas na plataforma continental. A taxa de aumento da produção soviética deverá ser pequena até que os campos da Sibéria Oriental entrem em produção, o que não deverá ocorrer antes de 2000 Nessa ocasião, a produção da Sibéria não deverá contribuir muito para o aumento global, servindo apenas para compensar a queda da produção dos campos mais antigos.
Secundária e Terciária
Hoje em dia muitos depositam grande confiança no uso de técnicas especiais para aumentar a produtividade dos campos petrolíferos. Nos campos dos Estados Unidos, a quantidade de petróleo que é extrai da de um campo sem o auxilio de técnicas especiais é da ordem de 30 a 40 por cento. Os norte-americanos têm maior experiência do uso das técnicas de recuperação do que todos os outros países. Assim, a discussão do uso dessas técnicas se aplica basicamente aos Estados Unidos, embora o Irã e a Arábia Saudita também estejam fazendo experiências neste sentido.
De acordo com a estimativa de uma grande companhia de petróleo-que não difere significativamente de outras estimativas-as reservas recuperáveis de petróleo dos Estados Unidos são da ordem de 252 bilhões de barris, sendo que a produção total até 2000 foi de 106 bilhões de barris. O resto, 146 bilhões de barris, está “disponível”, supondo que a produção, as técnicas de recuperação e a economia justifiquem o esforço. Calcula-se que o uso de técnicas de recuperação eficientes poderia aumentar a percentagem de petróleo recuperado de 20 por cento para 37-47 por cento. No caso de novas descobertas, a taxa de recuperação poderá ser da ordem de 32 por cento, a porcentagem mais baixa refletindo o fato de que os campos futuros ficarão provavelmente na plataforma continental ou, se em terra, em reservatórios menores, mais profundos e de pior qualidade - campos mais difíceis de atingir e de exploração mais cara.
Assim, o uso de técnicas especiais de recuperação é extremamente importante. Entretanto, o que muitos esquecem é que as técnicas de recuperação secundária -uso de água, vapor, gás e produtos químicos, bombeados em um reservatório para facilitar a extração do petróleo têm sido aplicadas com sucesso em um número relativamente pequeno de campos e apenas quando as características do campo são muito bem conhecidas e as técnicas são usadas corretam ente; é preciso usar uma combinação de habilidade com um sistema complexo e sofisticado de exploração. Não se trata de um processo simples, aplicável a todos ou mesmo à maioria dos campos.
As famosas técnicas de recuperação terciária, que utilizam uma tecnologia mais avançada para aumentar ainda mais o rendimento dos campos, ainda não foram usadas fora dos laboratórios; talvez só possam ser aplicadas daqui a dez anos. E difícil calcular a quantidade adicionai de petróleo que essas técnicas permitirão recuperar.
Relação Reservas-Produção
A relação reservas/produção é um indicador da longevidade das reservas de petróleo aos níveis de produção correntes. Na prática, os níveis de produção não se mantêm constantes e as estimativas das reservas são corrigidas à medida que a própria exploração revela novas informações a respeito das características do campo. Além disso, a utilidade do indicador é suspeita, já que, até hoje, nenhum país foi capaz de definir uma relação reservas/produção ideal. Na verdade, a pergunta: “por quantos anos um campo deve ser explorado, e com que nível de produção?” ainda não foi respondida.
O relatório do Congressional Research Service “Toward Project Interdependence: Energy in the Coming Decade” contém um cálculo interessante. Se a produção de petróleo aumentar à razão de 4 por cento ao ano e se a demanda de petróleo aumentar à razão de 4 por cento ao ano, 844 bilhões de barris de reservas recuperáveis serão necessários para manter uma relação reservas/produção de trinta e cinco anos. Subtraindo a produção acumulada das reservas recuperáveis atuais, chegamos à conclusão de que para isso será preciso descobrir novas reservas que totalizem 490 bilhões de barris. Para fazermos uma comparação, a produção mundial de petróleo entre 1918 e 1973 foi de pouco menos de 300 bilhões de barris, e as novas reservas vêm sendo descobertas à razão de apenas 15-20 bilhões de barris por ano desde a década de 1940, um número que inclui os fabulosos campos do Oriente Médio e da ex U.R.S.S.
Se, como previsto, a taxa futura de aumento das reservas for de apenas 15-20 bilhões de barris por ano, a produção anual será cada vez maior que as descobertas do mesmo período, de modo que as reservas tenderão a diminuir. Se excluirmos, por motivos de segurança, as reservas descobertas no Oriente Médio e no ex Bloco Soviético, a incapacidade do mundo de obter reservas suficientes se tornará evidente: no período 1950-1973, apenas 105 bilhões de barris de reservas provadas foram encontrados fora da ex U.R.S.S. e do Oriente Médio, o que corres.?
Por outro lado, as estimativas de reservas não-descobertas sugerem que é tecnicamente viável que reservas maiores que os últimos cinqüenta e cinco anos de produção sejam acrescentadas às reservas recuperáveis. Entretanto, o progresso provavelmente será lento: a prospeção dessas reservas será muito dispendiosa, e elas estarão localizadas em ambientes hostis. De qualquer forma, apenas uma parcela dessas reservas adicionais estará localizada nos países industrializados. Além disso, os longos prazos de maturação tornam improvável que essas reservas sejam descobertas e exploradas a tempo de atenderem aos aumentos da demanda. Lembrando a finalidade da relação reservas/produção, a conclusão é a de que haverá uma escassez de petróleo no período entre 2010 e o final do século.
Muitos países nunca chegarão a uma relação reservas/produção de trinta e cinco anos e não conseguirão nem mesmo manter a relação atual. As reservas dos Estados Unidos representam talvez dez anos de produção aos níveis atuais. É provável que esta relação diminua ainda mais, com a entrada em produção dos campos do Alasca. Na Europa, a relação reservas/produção pode levar a conclusões errôneas: as reservas do Mar do Norte estão incluídas, mas a produção do Mar do Norte ainda é relativamente pequena. Na Rússia, tanto a produção como as reservas tendem a aumentar, mas a relação reservas/produção, que é atualmente de vinte anos, deverá diminuir.
Não vale a pena continuarmos a analisar a relação reservas/produção. O que é importante é que o aumento das reservas provavelmente será pequeno demais e lento demais para manter as relações reservas/produção correntes. Além disso, a deterioração ocorrerá mais rapidamente nos países industrializados. A partir de 2010, a capacidade ociosa do Oriente Médio também começará a cair.
Consumo e Demanda de Petróleo
As vantagens do petróleo como combustível incluem: (I) disponibilidade em quantidade suficiente e, até recentemente, por baixo preço; (2) facilidade de transporte; (3) versatilidade e facilidade de substi¬tuir outras fontes de energia. O consumo mundial de petróleo quintuplicou nos últimos vinte e cinco anos. O consumo dos Estados Unidos quase triplicou, passando de 6 MBD para 17 MBD no mesmo período, enquanto que o consumo de petróleo nos países do Este Europeu aumentou por um fator de dez.
Os fatores que determinam os níveis de produção incluem:
I. População
Já que países com populações maiores necessitam de rendas maiores para assegurar um mínimo de investimentos econômicos e sociais, e assim manter a estabilidade política e encorajar o desenvolvimento econômico e o crescimento econômico auto-sustentado, os países altamente populosos precisam maximizar a renda proveniente do petróleo. Embora o tamanho da população tenha sem dúvida alguma influência sobre a necessidade de renda do petróleo, as metas do governo estão ligadas mais diretamente ás necessidades de renda do que a uma simples estatística de população. Quanto mais ambiciosas as metas do governo com relação ao futuro do país, maiores as necessidades de renda.
2. Estrutura da Economia
Se as metas do governo puderem ser atendidas por rendas de várias fontes, a necessidade de rendas de petróleo não será tão premente. Embora não seja provável que nenhum país produtor concorde em vender petróleo por um preço menor que o que considera como justo, a existência de outras fontes de renda pode permitir que um país limite a produção, de modo a prolongar a vida das reservas. A produção de petróleo como porcentagem do Produto Nacional Bruto, a renda do petróleo como porcentagem da receita do governo e as exportações de petróleo como porcentagem das exportações totais são indicadores da importância do petróleo em uma dada economia.
3. Planos de Desenvolvimento
Os planos de desenvolvimento do governo, embora em muitos países da OPEP os orçamentos raramente sejam cumpridos, constituem uma indicação dos rumos que os líderes da nação gostariam de tomar e dos preços que estão dispostos a pagar. Os planos de desenvolvimento permitem inferir a necessidade de importações e, portanto a renda necessária para pagar essas importações. Indicam ainda as possibilidades e limitações de outras fontes de renda. Assim, os planos de desenvolvimento podem ser importantes indicadores das futuras necessidades de renda de um país.
4. Reservas de Petróleo
Os governos com menores reservas podem ser mais cautelosos com os níveis de produção permitidos. Para prolongar a vida das reservas, níveis de produção conservadores podem ser adotados. Por outro lado, os países que dispõem de reservas maiores podem-Produzir mais sem comprometer a produção futura. Um país com pequenas reservas, mas com boas possibilidades de desenvolver fontes alternativas pode preferir uma grande produção, mesmo com o risco de esgo¬tar as reservas, para financiar os selares econômicos mais promissores.
5. Preços
O preço também é um fator muito importante, Quando os preços estão elevados, os países com pequenas reservas de petróleo podem obter uma renda aceitável com um nível de produção relativamente baixo, liberando assim o governo do dilema de escolher entre a conservação e a necessidade de receita. A estrutura do mercado de petróleo também é importante. Em um mercado com pequena capacidade ociosa e em uma situação de grande demanda, torna-se necessário limitar deliberadamente a produção.
6. Política Regional
A decisão da Arábia Saudita, em dezembro de 1976, de romper com quase todos os outros membros da OPEP e aumentar o preço do petróleo em apenas 5 por cento em 1977, em lugar do aumento de 10 por cento proposto pela OPEP, com um aumento de mais 5 por cento em julho de 1977, foi seguida por um aumento da produção da Arábia Saudita. Este é apenas um exemplo em que a política regional influenciou os níveis de produção. A decisão da Arábia Saudita de aumentar a produção para baixar os preços pode ter sido motivada, em parte, pelo receio de que o Irã aumentasse suas rendas de petróleo e conseqüentemente suas aquisições de equipamentos militares; o objetivo também pode ter sido mostrar ao mundo que as decisões quanto ao comércio mundial do petróleo estavam nas mãos dos sauditas, e não do Irã. Além disso, os sauditas deixaram bem claro que sua decisão estava condicionada ao “progresso” nas negociações de paz no Oriente Médio (Israel) e ao progresso no diálogo Norte-Sul em Paris. Assim, os níveis futuros de produção de petróleo podem ser influenciados por fatores políticos.
Nenhum desses fatores é determinístico, isto é, embora possa parecer lógico para um observador de fora que um fator isolado deva enunciar a produção de certa forma, é possível que, visto de um ponto de vista diferente, o mesmo fator implique outra linha de ação. Além do mais, os fatores podem ter influências opostas. Na verdade, os fatores sugeridos não apontam necessariamente uma direção única. Além disso, os fatores não são independentes, de modo que os níveis reais de produção serão determinados por uma combinação complexa de todos esses fatores e outros.
É precisamente uma mistura complexa de fatores econômicos e objetivos políticas que determina a hoje famosa capacidade de absorção, que, por sua vez, deverá determinar os níveis de produção. Uma definição de capacidade de absorção não pode ser separada dos objetivos dos estadistas-das opiniões dos lideres a respeito da estrutura econômica e política e do papel do seu país, tanto no plano interno como no plano externo, incluindo a importância atribuída a gastos militares. Nunca será correto afirmar que uma nação não pode fazer uso dos fundos gerados pela produção do petróleo para fomentar o desenvolvimento interno, porque o uso dos fundos está ligado a certos horizontes e imagens nas mentes dos estadistas. O próprio aumento da receita contribui para alargar esses horizontes. O aumento de influência internacional é acompanhado por metas externas mais ambiciosas, maiores oportunidades de aventura e maiores responsabilidades internacionais.
Refinação
A maior parte do comércio internacional de petróleo é feita sob a forma de petróleo bruto. As exportações e importações de produtos do petróleo são muito menos importantes, confirmando o fato de que a maioria das nações optou pela auto-suficiência no setor de refinação. Os produtos refinados representam apenas 15 por cento do comércio mundial de petróleo. Esses produtos foram responsáveis por 20 por cento das importações de petróleo dos Estados Unidos e as Antilhas foram o principal fornecedor. Os Estados Unidos, por sua vez, foram responsáveis por mais de 40 por cento do comércio mundial de produtos do petróleo. Outros países industrializados dependem ainda menos de importações de produtos refinados.
As refinarias geralmente são instaladas nas proximidades dos mercados consumidores, evitando assim a necessidade de usar navios especializados. Com O aumento da capacidade de refino, os governos dos países consumidores puderam fazer uso do valor acrescentado, e alguns países chegam a pagar o petróleo bruto que importam com O lucro.
A Demanda de Produtos Refinados
A demanda de produtos refinados está concentrada nos países industrializados. A América do Norte, a Europa Ocidental e o Japão foram responsáveis por 80 por cento da demanda de produtos refinados do petróleo em (um total de 36.025 mil barris por dia para,as três regiões). No mesmo ano, a América do Sul, o Oriente Médio, a África, o Extremo Oriente e a Oceania contribuíram com apenas 20 por cento. As questões relativas aos produtos refinados têm muito menos a ver com o nível ou o aumento da demanda do que com o modo como essa demanda é satisfeita.
Capacidade de Refino
A capacidade de refino está altamente concentrada nos países de¬senvolvidos. Todas as regiões são auto-suficientes, exceto os Estados Unidos.
Entretanto, se incluídas as refinarias das Antilhas, das quais são o principal consumidor, os Estados Unidos se tornam auto-suficientes e mesmo adquirem capacidade ociosa. Em verdade, todas as regiões dispõem de uma considerável capacidade ociosa. No primeiro semestre de 1980, as refinarias norte-americanas funcionaram a cerca de 85 por cento da capacidade máxima; as refinarias das Antilhas funcionaram a 50 por cento; as da Europa, a 60 por cento; as do Japão, a 80 por cento. Na média, as refinarias do mundo funcionaram a cerca de 75 por cento da capacidade máxima.
O aumento da capacidade de refino da OPEP poderia contribuir com mais. Os países da OPEP estão custando a iniciar os grandiosos projetos de refinarias que surgiram na euforia causada pela alta dos preços do petróleo. Os números absolutos podem estar errados, pode levar mais tempo que o previsto para que esses projetos sejam completados, mas a tendência parece nítida.
As implicações especiais para a segurança da dependência de produtos refinados (em lugar da dependência de petróleo bruto) são evidentes. Uma escassez de petróleo bruto pode ser compensada por outras fontes. Entretanto, no caso da escassez de um produto, pode não existir uma fonte alternativa, dependendo da política dos países da OPEP, que podem exigir o uso de suas refinarias, ou dependendo da capacidade ociosa das refinarias de exportação (localizadas em outras regiões) para atenderem à emergência. Além do mais, os produtos refinados geralmente têm que ser transportados em navios especiais, que constituem apenas uma pequena parcela da frota mundial de petroleiros; a capacidade desses navios pode não ser suficiente para manter o abastecimento a partir de refinarias mais distantes do que aquelas cuja paralisação iniciou a crise.
A Frota Mundial de Petroleiros e a Logística do Abastecimento
A frota de petroleiros do Mundo é a principal responsável pelo transporte de petróleo das regiões produtoras para os centros de consumo. Dos quase 32 MBD de petróleo bruto e 5 MBD de produtos do petróleo que constituem o comércio internacional, aproximadamente 95 por cento são transportados, pelo menos em parte da viagem, por um petroleiro. A adequabilidade, propriedade e controle da frota de petroleiros constituem, portanto elementos essenciais da geopolítica energética.
A adequabilidade da frota se refere à capacidade de transportar o petróleo em quantidades suficientes. Além disso, a frota pode ser avaliada em termos de sua capacidade de transportar outras fontes de energia como o carvão, que, embora hoje em dia de pequena importância relativa, podem tornar-se mais importantes no comércio internacional do futuro. Finalmente, a adequabilidade pode também ser avaliada em termos da capacidade de servir a certas localidades; adequabilidade implica uma certa flexibilidade para lidar com acontecimentos imprevistos, que exijam remanejamentos.
As questões de propriedade e controle envolvem a intenção declarada dos países exportadores de petróleo de ingressarem no setor de transportes da indústria petrolífera e as conseqüências de mudança se ela realmente ocorrer. O volume da participação dos produtores será importante; e os setores em que concentrarem suas atividades serão também importantes.
Uma segunda consideração que resulta da possível mudança na propriedade da frota de petroleiros para os países exportadores de petróleo.
Como o comércio de petróleo ocupa uma posição de destaque no comércio marítimo mundial (49 por cento), o transporte do petróleo é importante para a viabilidade das indústrias nacionais de transportes marítimos.
Além da preocupação com a frota de petroleiros em si, mas intimamente ligada à logística do abastecimento, está a questão da segurança das rotas marítimas. A preocupação com a segurança das rotas existentes deve ser suplementada por uma avaliação de rotas alternativas e as implicações para:
(I) a defesa de rotas alternativas e
(2) a rapidez do fornecimento de petróleo se as rotas alternativas tiverem que ser usadas. Além disso, a possibilidade de os Estados Unidos impedirem o fornecimento de petróleo de um país estrangeiro para outro também é de interesse.
Finalmente, a segurança e defesa de portos e terminais, tanto nas regiões produtoras como nas regiões consumidoras, são de importância estratégica. Os portos e terminais marítimos também podem ser avaliados em termos de sua adequabilidade, isto é, sua capacidade de processar exportações e importações em quantidades suficientes para atender às necessidades. A segurança dos grandes terminais de exportação, como o de Ras Tanura na Arábia Saudita e Kharg lsland no Irã, é essencial. O mesmo se pode dizer dos grandes terminais de recepção nos países consumidores de petróleo.
Nossa análise se concentrará nas quatro áreas seguintes:
Adequabilidade da frota mundial de petroleiros
1. propriedade e controle da frota
2. segurança das rotas marítimas
3. adequabilidade e segurança dos portos e terminais
Adequabilidade da Frota
Atualmente, a frota mundial de petroleiros dispõe de uma grande capacidade ociosa. Em 1975, em uma fase de recessão, a capacidade ociosa atingiu 114 milhões de toneladas de peso morto (DWT), o que correspondia a 40 por cento da capacidade disponível. No primeiro trio mestre de 1977, a capacidade ociosa foi estimada em 100 milhões de DWT -um desastre comercial, conseqüência da queda da demanda, resultante da recessão mundial, e também da construção de navios em excesso.
No final de 1979, a frota mundial de petroleiros totalizava 327 mi¬lhões de DWT. Embora tenham sido canceladas as encomendas de muitos navios novos e cerca de 13 milhões de DWT tenham deixado o serviço ativo em 1977 e no primeiro semestre de 1978 (comparados com 10,5 milhões de DWT nos dez anos anteriores), o excedente de petrolei¬ros continuou sério. Além disso, em meados de 1978, o volume de encomendas era de 56 milhões de DWT. Se todos os navios continuassem em uso, a frota mundial de petroleiros chegaria a 362 milhões de DWT.
A adequabilidade da Frota só pode ser avaliada em relação às qualidades e tipos de produtos que a Frota terá que carregar e as localidades a que terá que atender. Entretanto, a seriedade da situação de capacidade ociosa pode ser demonstrada através de um exemplo.
A longo prazo, a capacidade ociosa pode diminuir. Do lado da demanda, as previsões podem revelar-se excessivamente modestas, e a demanda de petróleo pode aumentar com um melhor desempenho econômico dos países industrializados. Um maior interesse norte-americano pelo mercado do transporte das grandes distâncias também pode ocasionar um aumento da demanda de petroleiros. Entretanto, apenas os navios menores (menos de 80.000 DWT) podem utilizar os portos norte-americanos existentes, e embora a demanda de navios desse porte possa aumentar (alguns analistas prevêem uma escassez de pequenos petroleiros quando os já existemes Forem aposentados, pois atualmente a construção de pequenos petroleiros é limitada), o excesso de “Very LargeCrude Carriers” ou VLCC (Superpetroleiros) continuará a preocupar a indústria.
Os petroleiros continuarão a ser construídos, mas em menor número. Os altos custos de substituição (combinados com os baixos Fretes) não encorajam a construção de novos navios. Os altos custos de substituição também não encorajam a retirada dos navios antigos, mas a pressão para esta retirada é inerente â situação atual de excesso de capacidade ociosa. Uma demanda de petróleo maior que a prevista, o começo da exploração de novas reservas, a redução do número de novos navios e a retirada de navios antigos podem reduzir os excedentes.
Entretanto, vários fatores podem contribuir para manter esses excedentes: (I) o aumento da produção de campos localizados nas proximidades dos centros de consumo (Mar do Norte e Alasca); (2) a possibilidade de que os países consumidores de petróleo encorajem o desenvolvimento de campos próprios ou em países próximos; (3) a possibilidade de que alguns países, particularmente os Estados Unidos, promulguem leis dando preferência aos petroleiros nacionais, o que estimulará a construção de navios em todos os países que adotarem essas leis; (4) a intenção dos países produtores de entrarem no setor de transportes (se isto envolver a construção de novos navios, em lugar da compra ou aluguel de navios já existentes).
Segurança das Rotas Marítimas
A importância das rotas marítimas do Oriente Médio para os Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão é evidente. Mais de 75 por cento da frota ativa de petroleiros oceânicos está empenhada cm transportar petróleo do Oriente Médio para o resto do mundo. Além disso, 66 por cento da frota mundial de petroleiros está ocupada no transporte de petróleo do Oriente Médio e do norte da África para os mercados do mundo industrializado, isto é, Estados Unidos, Canadá, Europa Ocidental e Japão.
No momento, a situação parece estável, com mas nada garante que esse estado de coisas possa evoluir para eventos graves, com reais perigos para o mundo inteiro. O conflito serviu para demonstrar a fragilidade política dos estados árabes, aparentemente unidos em torno da OPEP -quando se trata de aumentar os preços dessa matéria-prima e auferir mais lucros ¬mas travando entre si uma luta surda pela predominância na região.
As grandes potências firmaram um pacto tácito de não-intervenção na guerra, receosas todas de um alastramento das hostilidades e envidando todos os seus esforços para um cessar-fogo imediato. Mas os países vizinhos, direta ou indiretamente, estão tomando partido. A Síria, tradicional adversária política do Iraque, ajuda o Irã, o mesmo acontecendo com a Líbia e Israel, que nunca leve grandes simpatias pelo Irã dos aiatolás. Como se vê, a situação é bastante confusa, não se podendo prever os desdobramentos dessa crise.
No momento, tanto para os Estados Unidos quanto para a Europa Ocidental como Japão, o importante é que o conflito não se alastre e que permaneça sem alteração o fluxo de petróleo proveniente dos demais países do Golfo Pérsico que passa pelos Estreitos de Hormuz.
Se o Canal de Suez fosse usado para transportar maiores quantidades de petróleo bruto, os petroleiros não evitariam necessariamente os Estreitos de Hormuz. O Canal hoje em dia não parece ser uma rota desejável - os fretes estão baratos, e o Canal não serve para navios de grande porte.


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